Crônica - Por que a arte?

"E pur si muove!" - Coluna de Wander Diniz

26/12/2016

 

E pur si muove!* - Coluna de Wander Diniz**

 

Por que a arte?

 

Naqueles anos de infância no interior, onde o mundo e todas as coisas pareciam recém-inaugurados, tempo de muitas árvores no quintal, de muitos quintais e umidade memoráveis, de todos os prazeres pouco ligados ao consumismo, havia para nós o tempo mágico das águas. Tempo este que culminava no nosso Natal, de novenas e presépios, da incrível e inesquecível figura do sr. João Faísca, artista que nos alimentava a fantasia com seus presépios singelos,de imagens que despertavam em mim o fascínio diante da transformação da matéria, no caso, gesso, tintas e vernizes em delicadas figuras de sonho e encantamento.

 

Me lembro que chovia muito e que a cerca-viva de cipreste da Praça de Esportes, em frente à minha casa, exalava o perfume da folhagem molhada e o odor da terra úmida. O cheiro fresco e virgem de um mundo mais limpo e lavado, um mundo que estava me aguardando. Havia o desejo de comprar carneirinhos, pastores, reis, camelos, um galo, a Sagrada Família, para junto dos galhos verdes do cipreste montar o meu presépio de sonho. Eu misturava tudo. Índios, cowboys, soldadinhos de plástico, um bibelô de bailarina de braço quebrado, tudo isso em uma composição esdrúxula e totalmente pessoal.

 

Naquela época, tínhamos o costume de visitar os presépios nas casas das pessoas que os montavam. Talvez houvesse mesmo uma competição entre eles. Alguns eram incríveis, cheios de folhagens, grutas de malacaxeta e grafite: tinha o do sr. Aquiles, o do sr. Niquinha da prima Tibina, o do Biba da Jamile, da Tininha do Zé Rocha, das Igrejas Matriz e São Francisco e, naturalmente, o do sr. João Faísca, com seu céu de azul intenso e a estrela de Belém a apontar a exata localização da gruta. Tudo isso era a própria mágica que se apoderava de nós crianças no tempo do Natal. Ficávamos bonzinhos e cordatos para merecer um presente.

 

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Mas o que me marcou mesmo foi a figura de meu avô Jair. Ele era fazendeiro no Quilombo, em Carmo da Mata, e comprou uma casa em Itapecerica, onde existiam bons colégios para os filhos estudarem. Fui muitas vezes com meu avô e seu motorista, o Tibino, visitar meus parentes, compadres e comadres, nas roças. Conheci paisagens maravilhosas, casas e pessoas igualmente incríveis. A da madrinha de minha mãe, Rita Hortênsia, tinha um enorme terreiro de café nos fundos; a casa do tio Juca Delfino, com seu pomar, café, doces e quitandas de sabores inigualáveis, sem falar no acordeón que os rapazes tocavam.

 

Minha infância foi muito rural, abundância infinita de pomares, frutos, minas d’água, mojolos, engenhos, cana, melado e rapadura, mais queijos e mais queijos, leite e doce de leite, carne de porco de lata e couve. E as parreiras de uvas de sabor muitas vezes ácido, que eram minhas frutas preferidas depois das goiabas, que eu prefiro as de vez, com a polpa madurinha e vermelha. Muitas tardes eu ficava horas a fio trepado nas galhas das goiabeiras, buscando as mais bonitas e tenras, e ainda enchia os bolsos para comer depois.

 

Outra coisa que eu gostava era de brincar no fundo da horta, como eram chamados os quintais. Ficar olhando os muros com sua manta de veludo e jade. Pequeno e grande mundo, repleto de sensações de toque e um certo erotismo que o exuberante verde me propiciava. Aquelas verdadeiras instalações, cenários de vida e mistério, locais onde o sol entrava através de árvores para criar desenhos maravilhosos, eram um prato cheio para minha mente fértil criar estórias de bruxas, heróis e deuses, personagens e situações próprias do meu universo infantil.

 

E parece que a questão se fecha nesta coisa de umidade, do frio, das grotas e reentrâncias esplêndidas das beiradas dos riachos, dos troncos, das pedras do meu caminho de artista. E às vezes tudo é tão fresco como se eu estivesse novamente lá na Rua da “Vargem”, importunando a dona Sação, querendo adquirir dois pastores, três carneiros e um galo para pôr no meu presépio, cheio de faltas e saudade, exuberante em seu fundo de cipreste e barba-de-pau, de musgo e fé, como se ainda não houvesse morrido todos, como se a maturidade e as consequências dela não existissem, que faz tudo chato e cruel.

 

Nesta nesga de religiosidade, inocência e credulidade, nesta memória drummondiana e barroca, nestes cantos mofados dos velhos casarões, nestes quintais de frio, borboletas e besouros, reside o que eu encontro de mais próximo para tentar localizar os motivos que me levaram a escolher este caminho: uma angústia sem fim, uma sensibilidade à flor da pele que cobriu a minha infância com uma bruma acinzentada própria dos que lêem o futuro, sem poder mudar-lhe a sorte.

 

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Em termos práticos, posso dizer que tudo começou mesmo em uma tarde de janeiro quando caí da minha janela, aos quatro anos, enquanto observava fascinado um leilao de São Sebastião, nos fundos da Matriz de São Bento. Chovia muito, muito mais que hoje, e meu tombo fezcom que meu olho inchasse e toda minha cabeça doesse muito. Deitado, ouvindo a chuva, eu brincava com meus companheiros imaginários. Deitado eu compreendi que a gente fica triste quando se machuca, que a dor também faz parte da vida.

 

Posso dizer que tudo começou muito antes, quando fundaram minha aldeia, ou quando meus avós eram jovens, ou quando eu mesmo era jovem, ou quando foram promulgadas as leis da Sorte, da Ventura e do Amor. As leis que determinam quem deve ser amado, e como. E quanto.

 

Por motivos incrivelmente práticos me prendi às pequenas coisas. As grandes coisas jazem para sempre do lado de dentro. E minha sorte, minha vida, minha finita ventura ficaram petrificadas lá no fundo dos quintais, nas paredes, úmidas, frias, escuras de minha memória de elefante. Então, por estes muitos motivos, eu escolhi este caminho. Não acredito que o mundo vá se salvar, ou mesmo que exista uma salavação para a humanidade, mas acredito na arte como uma forma de resignificação e compreensão das coisas. Só a arte pode dar um sentido e uuma direção para a vida e para o mundo.

 

Por acreditar que a vida vale sempre o horror do viver é que escolho o caminho transformador da arte.

 

Tenho horror às guerras, tenho respeito pelo fogo. Gosto mesmo é de tirar os sapatos e pisar na areia úmida, de fazer com as mãos uma concha e matar a minha sede. O resto é desnecessário, pois como diz o poeta Tom Jobim: longa é a arte, tão breve a vida.

 

 

*"E pur si muove" é uma frase que teria sido dita por Galileu Galilei, após renegar a visão heliocêntrica do mundo perante o tribunal da Inquisição. Em português, sua tradução seria algo como “no entanto, ela se move”.

 

** Wander Diniz é itapecericano e professor na Escola Estadual Padre Herculano Paz.


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