Crônica - 2016: o ano que não terminou

21/12/2016

 

Gregory Rial*

 

Tanta coisa acontecendo, entre embaixador morto e avião caindo, preços que sobem e governos que não honram seus compromissos, nem com o 13º salário – e uma única sensação: que ano difícil foi este! Parece que houve um decreto geral, um consenso universal de que 2016 foi um dos piores anos da história. Mas não será este um pensamento automático? O que está por trás da frase: o pior ano da história? Vamos analisar.

 

Primeiramente, pode estar uma real convicção que as coisas deram errado pelas forças misteriosas do destino, talvez por um infortúnio numerológico, afinal, o número 6 é dito como imperfeito. Quem sabe, assim pensamos porque numa análise racional dos fatos percebemos que este ano foi muito complicado do ponto de vista político, econômico e social – houve uma ascensão do conservadorismo, radicalizou-se a ação dos terroristas, crise econômica, impeachment, a ameaça de uma terceira guerra mundial...

 

Contudo a simples afirmação de que “2016 foi o pior ano dos últimos tempos” não acrescenta em nada à nossa humanidade, simplesmente porque o pessimismo nunca foi capaz de construir algo. Ao olhar para 2016 com nossas sensações esotéricas ou realistas – não importa! – devemos nos perguntar: será que foi tão ruim assim? E ainda: por que foi tão ruim?

 

Como tudo depende da nossa maneira de olhar e dos óculos com que olhamos, eu pergunto: não será que a maioria de nós avaliamos mal este ano porque o estamos olhando do lugar da vítima, da passividade? Será que é por que não compreendemos nosso protagonismo existencial e ainda não entendemos que depende de nós um ano ser bom ou ruim? O que é que podemos aprender com 2016?

 

Ao invés de reclamar da crise, por que não aprendemos o valor da austeridade e da simplicidade, saindo da lógica capitalista que associa consumo à felicidade? Por que não encontramos a felicidade além das finanças e deixamos que os gananciosos sofram com o declínio econômico? Por que insistimos em ter alto padrão de vida, quando isso destrói o planeta e nos afunda em emoções de frustração e decepção?

 

E se nossa insatisfação com a política saísse das redes sociais e das rodas de conversa e se transformasse em protesto digno nas ruas e nas urnas? Por que reclamamos tanto da política, mas não nos juntamos àqueles que lutam – os estudantes que ocupam escolas, os grevistas que paralisam as atividades, a classe trabalhadora que enfrenta a truculência policial? E ainda os criticamos, os chamamos de vagabundos... Mas são eles que estão fazendo algo para mudar a situação. Eles não estão no facebook só compartilhando informações e desabafando com clichês! Eles estão lutando, às vezes com o próprio sangue.

 

Por que nos enchemos de preocupação quando vemos um Trump ganhando as eleições norte-americanas e ficamos atemorizados de pensar que pode acontecer algo semelhante no Brasil, se continuamos acreditando no falso discurso do “eu não sou político – vote em mim”? Por que ficamos com medo do ultra conservadorismo, mas ainda conservamos sentimentos de preconceito, homofobia, desprezo e racismo em nossa mente?

 

Reclamamos muito e colocamos a culpa do “fracasso” de 2016 nas mãos do governo, da economia, da sociedade e não nos damos conta que governo-economia-sociedade são tão abstratos quanto ilusórios. Quem é o governo? Quem movimenta a economia? Quem constitui a sociedade? Aliás, é preciso parar e pensar que a melhora depende mais de nós do que dos outros, ou então seremos escravos das circunstâncias. Um ano ser bom ou ruim, não depende tanto de Deus, ou dos astros, ou dos números, mas depende de cada um que, ao renovar sua esperança e seu otimismo, é capaz de assumir a vida na sua dureza e alegrar-se – haja o que houver. Nessas horas próximas de 2017, vale a pena o ditado: “seja a mudança que você quer ver no mundo!”. Não apenas veja, mas SEJA!

 

Pense bem!

 

Opinião por:

Gregory Rial é itapecericano, mestre em filosofia pela Faculdade Jesuíta e professor. Dedica-se ao estudo da ética, sociedade e comportamento.


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