Réquiem ao bom Epíscopo

14/03/2020

 

Luiz Otaviano Brito Araújo

 

Dizem, que durante os instantes derradeiros da vida, memórias são rebobinadas aleatoriamente no subconsciente do indivíduo. A aflição do espírito teimando em deixar a carne, provoca um emaranhado de lembranças que instantemente remontam, no cérebro humano, o surgimento de vagas lembranças, de momentos vividos e até esquecidos, que durante o curto espaço “nascer-morrer” constituíram a existência do sujeito. Em seu ímpeto de sobrevida, temendo o passamento pós ceifados os sinais vitais, mesmo que inconsciente, tais flashes de memória quebram a inércia do cérebro e o lapso temporal, e se afloram, palmilhando desde pequenas ocorrências da infância aos mais notáveis episódios vivenciados. E na hora final de Dom Zicó, me pergunto: Como terá sido esta quase epifania autobiográfica?! Mormente, tem a ver com o amor. Inegavelmente, orbitou no campo da prática do Bem.

 

Destarte, pontuo que a palavra AMOR, de quatro únicas letras, possui significado amplo, embora superficialmente seja alinhavado a sentimentos afetuosos, como quando interpretado em nuance do que liga homem / mulher, ou pais e filhos, embora também, esse singelo verbete guarda o significado de algo maior, que transcende a matéria e eleva o Ser, na medida que aproxima o Homem de Deus, afinal, Deus é Amor.

 

Se Dom Zicó rememorou instantes de vivência deste mencionado sentimento antes de expirar pela última vez, com certeza em sua mente foi apresentado de novo um norte que teve sempre em sua vida: Jesus. Este mesmo que se permitiu morrer para remir os pecados do mundo, e nisto, por Palavra e gesto, deu a pauta universal de que é mandamento amar uns aos outros como Ele amou; doar sem esperar recompensa; fazer o bem sem aguardar receber o bem. Jesus e o Amor estão interligados por um fio vital que é a observância da obediência à Deus e o zelo, a fraternidade incólume para com os irmãos. Daí dessa analogia ao que Dom Zicó deva ter relembrado antes de se entregar à irmã Morte, ele amou e se pôs a serviço do amor na amplitude do “ser-irmão” em cada ação, palavra; das missas à caridade que praticava no anonimato; nos conselhos e na fé. Dom Roque, como também era chamado, de certo se lembrou de momentos bonitos, banhados desse amor de irmão que faz do Homem um sublime seguidor do Cristo, pois dia após dia estava a se apropinquar de Deus.

 

O menino Sebastião, que crescera numa cidadezinha do interior mineiro, via amor no seu ambiente todo: A começar do pai, que se dedicava religiosamente à Música, tal qual, sendo bom progenitor, zelava da numerosa prole. Também na mãe, que se sentava com os filhos à varanda para observar o mundo como se almejasse para eles voos altivos, iguais às Garças que partem do sertão em revoada para longínquos manguezais atrás de saciar seus instintos. E eles voaram! Mãe essa, Dona Raimunda, que veementemente aplicou-lhes a doutrina católica, no mais sublime do que isso possa significar, haja vista a retidão cristã que todos herdaram. E nesses "voos", viu um dos seus meninos trazer um carro da América do Norte (pitoresca e mais ousada aventura que um Itapecericano já protagonizou - Ler "Meu Chevrolet 51 e eu", de Cesarinho), enquanto outro, Zicó, tomava para si a vocação do sacerdócio (voando mais alto que as Garças, por sinal). Penso no beijo na testa, no "vai com Deus, meu filho!" cheio de amor que essa senhora dispensou ao neo-seminarista, e antes disso, quando nascera, ao ter concedido-lhe o nome forte, de um Santo mui querido e reverenciado, guerreiro, São Sebastião, como se previsse as batalhas que o garoto travaria durante seus posteriores noventa anos, batalhas por amor… À Deus, ao povo. Tal qual o Mártir, que por amar o Cristo e sua Igreja, combateu até depois de ser cravejado por flechas.

 

Eis portanto a máxima da vida desse homem de Deus: Colocou o amor como alicerce e construiu tudo além que pôde na prática do Bem!

 

Dessa verdadeira escola do lar, onde a lição nada mais foi que o amor, saiu um Bispo. Piedoso, caridoso, extremamente bom! Vero, que depois da vida terrena de Dom Zicó, merecidamente se deveria incluir este nome como novo adjetivo da palavra Bondade. Ora, se observada a triangulação do que significa ser bom, é fato que o amor está na base e o bem nas duas outras laterais. Eis portanto a máxima da vida desse homem de Deus: Colocou o amor como alicerce e construiu tudo além que pôde na prática do Bem! Disto se vê inclusive o porquê de tanto ter incentivado a Música e os jovens: Sabia que dando-lhes amor desde o princípio, em sua formação como pessoa, cresceriam também construindo o bem - a Música é uma ferramenta formidável para tal, pois extrai o mais singular do Eu de cada um.

 

Quantos "Que beleza, meus irmãos!" devem ter aparecido nessas lembranças finais do filme que perturbou a consciência do dileto Bispo antes de sucumbir, lembrando do sorriso alegre das crianças na Missa das 9 horas enquanto rodeavam a Mesa do Altar para com ele rezarem o Pai-nosso, quantos "muito obrigado" deve ter recordado ao lembrar-se dos sorrisos nos lábios daqueles que ele presentou com instrumentos (Não só musicais, más também de fé - Terços, orações, imagens), muitos devem ter sido os instantes de graça que ele reviveu pensando na sua Itapecerica. Quisera também assistir esse filme, seria surreal, de tão bonito!

 

Dom Zicó, que agora se senta à Mesa do Senhor e nos deixa órfãos, embebidos de tristeza (pois como amou, também foi muito amado), plantou ternura e colheu benevolência! Prático é sempre ressaltar esse amor que o seduziu durante toda a vida, pois tal qual o longínquo voo da Garça, deixou marcas desde o ninho (casa do Maestro Cesário) ao Presbitério da Igreja Particular de Leopoldina e Belo Horizonte. Amor esse que alcançava não apenas a messe do Senhor, más estava na distribuição voluntária de bem a todos com equidade, pois não tinha distinções nem preconceitos, simplesmente seguiu a ordem do Mestre. Este, a Quem Zicó amou desde a Primeira Eucaristia, no Crisma, quando do seu "Sim" e adentrou no Seminário, amou muito no instante em que se debruçou levando a face ao chão para receber às Ordens de Padre e Bispo. Amou, com simplicidade, independentemente de ser quem era e do cargo Episcopal que lhe fora confiado. Entendeu o que Jesus mandou, e fez!

 

Prova de seu amor humilde está naquele sorriso de menino, a quem abraçava com tanto esmero, na candura das lágrimas do velho, ao ver-lhe em sua urna mortuária, na orfandade dos jovens ao perderem sua doce referência, no "Queridos irmãos, queridas irmãs, jovens e crianças…" que todos se enchiam de paz ao ouvir, no coração de cada um que dele pôde experimentar desse amor de pai, de irmão, de sacerdote e amigo. Por amor também, reconhecê-lo e chamá-lo de santo não é exagero, significa verdadeira esperança de vê-lo continuar nos dando esse amor lá do Céu, de junto da corte Celeste, cuidando de todos.

 

Santo Zicó, rogai a Deus por nós!

 

Foto: Danilo Moreira / Folha de Itapecerica

 


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