Crônica: Quem não tinha para torrar, não vai ter para beber

"E pur si muove!" - Coluna de Wander Diniz

20/10/2016

E pur si muove!* - Coluna de Wander Diniz**

 

Quem não tinha para torrar, não vai ter para beber

 

Naquele tempo da cidade antiga, poucas ruas calçadas, muito mato e muita água, sentadas ao sol estavam Dona Sinhana junto com sua comadre e vizinha Ceição. Elas catavam os marinheiros do arroz, conversavam sobre os maridos, os filhos, o alto preço do açúcar, o café torrado adoçado com rapadura, as dificuldades da política que pipocava na cidade.

 

As amigas e comadres eram de partidos diferentes, uma era "tareco" e outra "papiata". Evitavam falar no assunto, mas torciam por candidatos diferentes. Comadre Ceição, terminado o serviço, suspira fundo e diz para a amiga Sinhana: “- Comadre, quem não tem pra torrar, num vai ter pra beber!”.

 

Se levanta e segue deixando a amiga de boca aberta. “- Era uma provocação!”, disse Sinhana. “- Ah! Comadre, me aguarde, tô engasgada!”. E foi refogar seu arroz, desacorçoada.

 

Passaram os dias e veio a eleição. Eis que o partido de Dona Sinhana vence a eleição e a mesma não teve dúvidas, foi até a horta e colheu um monte de quiabos verdinhos, escolheu no “guarda comida” um prato fundo esmaltado com beirada azul anil.

 

Colocou no prato os quiabos que brilhavam à luz do dia quente, subiu morro acima bem devagarinho elaborando mentalmente o seu discurso, o seu troco. Ela bateu na porta da comadre Ceição:

 

“- Bom dia, comadre, vim trazer esses quiabos ‘procê’ e pro compadre comerem no almoço”. E também dá uma resposta que estava entalada na garganta: “- Olha, comadre... Quem num tinha pra torrar, agora vai ter pra beber..... e com açúcar, viu!”. Deu as costas e saiu apressada. Só escutou o barulho do prato malhado no terreiro. Nunca mais se falaram.

 

 

*"E pur si muove" é uma frase que teria sido dita por Galileu Galilei, após renegar a visão heliocêntrica do mundo perante o tribunal da Inquisição. Em português, sua tradução seria algo como “no entanto, ela se move”.

 

** Wander Diniz é itapecericano e professor na Escola Estadual Padre Herculano Paz.

 

(Imagem que acompanha o texto: "A Lebre e as Rãs", de Gustave Doré)


VOLTAR