Opinião - Resistir é preciso: a importância da Consciência Negra

Registro feito durante a Semana Santa de Itapecerica. (Foto: Danilo Moreira / Folha de Itapecerica)

20/11/2017

João Paulo Silva*

 

As sociedades criam estruturas que visam conectar o presente a eventos e personagens do passado. Outrora, em determinado momento, a própria História foi assim, elegendo eventos ímpares e que serviriam de exemplo a todo um grupo. Mas como um evento pode deixar de ser uma simples data e influenciar de forma viva o presente de uma sociedade?

 

No dia 20 de novembro, temos o dia da morte de Zumbi de Palmares -- ocorrida em 1695 -- que nas serras de Alagoas ajudou a criar uma comunidade de resistência ao regime escravocrata e às políticas de dominação de uma população minoritariamente branca.

 

De lá para cá, talvez algo tenha mudado, visto que em novembro de 2011 uma lei (Lei nº 12.519) passou a determinar que nessa mesma data tenha lugar o Dia da “Consciência Negra”. Trata-se de um momento para lembrar sobre resistência a uma sociedade em que os negros são mais de 70% de sua composição, segundo dados do IBGE. Temos aqui nosso paradoxo. De resistir ao domínio e exploração branca, ao fato de lembrar à grande parte da sociedade suas raízes e, mesmo assim, resistir ao processo silencioso de racismo e “branqueamento”.

 

Em 2014, porém, cerca de 54% da população se auto declarou negra, sendo que desse número nem cerca de pouco mais de 15% pertencem à camada mais rica da sociedade. Sem contar a morte de 150% a mais de negros em homicídios no país, em que, apesar dos números, grande parte da população resiste a visão de pertencer a esse grupo.

 

De jogadores de futebol a cantores populares, ver-se como negro torna-se algo impensável em alguns momentos. Isto devido a um código moral velado que transveste uma sociedade que tenta não ter rosto por acreditar numa heterogeneidade lançada com base em obras que ressaltam a amistosidade racial no caráter de formação do povo brasileiro. Cenário em que são desconsideradas as visões de luta social, em que há negação de que existe uma opressão a minorias, e da inexistência de oportunidades igualitárias no país.

 

É nessa mentalidade que tem lugar o questionamento à função das cotas, é nesse imaginário que resiste a crítica de um dia de consciência, são esses pensamentos comuns e discursos incentivados atualmente devido ao cenário político e econômico fundamentalmente reacionário, em que reside o discurso neoliberal meritocrático. Discursos esses vivos nas grandes cidades ou municípios onde negros cativos e forros erigiram ao custo de suor e lágrimas de muros de pedras que servem de divisa de terrenos a igrejas e altares, como é o caso de Itapecerica.

 

O presente dessa sociedade é o lugar dessa discussão, lugar dessa data que serve para estabelecer a resistência e a necessidade de continuar evidenciando a diferença, pois, mesmo após os quase 360 anos de escravidão, ainda exista uma sociedade não homogênea que ainda suprime e condiciona a visão e marginaliza os negros brasileiros. Por isso, é necessária a resistência.

 

Opinião por:

João Paulo Silva é itapecericano e graduando em História na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).

 

Texto postado originalmente no dia 18 de novembro de 2016.


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