Crônica: O Setenário Itapecericano

10/04/2017

 

Alexandre Reis

 

Muitas coisas nos tornam culturalmente – e inconfundivelmente – itapecericanos da gema. Como o amor incondicional, inacabável e especial à música, ou a prática cega, inabalável e estática do catolicismo. E poucas coisas são tão Itapecerica quanto a atmosfera secular do Setenário das Dores de Maria. Bate o meio-dia e, com ele, os sinos da Matriz e do São Francisco, de duas em duas horas, como uma conversa. Na padaria da esquina, na mercearia mais próxima, na rua principal, no salão de beleza, no banco, na loja, o papo que surge é quem presidirá a celebração à noite. É bom chegar mais cedo na igreja, comadre, senão não senta!

 

No caminho da Igreja de São Francisco, já no início da noite, a senhora ao lado, na calçada, segue apressada. Em cima da ponte do Rio Vermelho, empunhando o terço de madeira, o caderninho roxo para acompanhar a celebração e a vontade de rezar, sequer olha para trás. Porque, claro, há uma dezena de outras senhoras que também cogita o melhor lugar para acompanhar o Setenário. Na Praça São Francisco tem sereno, um pouco de frio, pipoca e algodão-doce. A pré-venda dos chocolates da Páscoa, os bons e velhos churros e os meninos mais agitados. E claro, saudades da mesinha da esquina da rua principal que vendia o grudento pirulito, que colava nos dentes e fazia lotar a sacristia, tamanha a sede que o doce provocava.

 

A cortina preta divide o povo dos quadros santos, até que o relógio marque 19h30. Então, o maestro inaugura a celebração e o clero inicia a procissão de entrada. O incenso percorre a madeira franciscana da igreja, escapa pelas janelas e atravessa os cantos de Itapecerica. É o anúncio oficial, a prova cabal, de que Itapecerica, por mais um ano, segue intensamente viva. Cultural. A fumaça tem voz: ela ecoa as marchas interpretadas pela Corporação Musical Nossa Senhora das Dores; prega as palavras de Dom Gil, Dom Zicó e de tantos outros que, hoje, presidem o Setenário do céu; e entoam o Ora pro Nobis do coral.

 

A cerimônia acaba, mas não se finda. As músicas tocadas ficam na cabeça durante toda a semana e o latim da abertura, também. No outro dia, pela manhã, a pregação ganha repercussão. Foi boa? Nossa, mas o padre fala bem! A igreja estava lotada! Demorou, mas foi lindo! E amanhã, será melhor? É como se alguém perguntasse: você foi itapecericano ontem e será hoje à noite? Verdade seja dita: nem é preciso, para ser autenticamente itapecericano, frequentar ou participar do Setenário das Dores de Maria. Basta transitar pela Praça São Francisco ali pelas oito horas da noite, em qualquer dia da semana que antecede o Domingo de Ramos.

 

Opinião por:

Alexandre Reis é estudante de Jornalismo e natural de Itapecerica.


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