Crônica - O ódio nosso de cada dia nos dai hoje

23/01/2017

 

Gregory Rial*

 

Precisamos falar sobre essa palavra – ódio – quase que proibida pela nossa hipocrisia moral. Palavra que preferimos não pronunciar porque é feia demais para nossa beleza exterior de “pessoas de bem”. Apesar de censurado, o ódio tem sido um dos carros chefe da sociedade atual e seus mecanismos são muito sofisticados e sutis.

 

O ódio, mais do que um sentimento, é uma categoria do discurso, ou seja, ele se mostra na linguagem, na maneira como nos expressamos verbal e corporalmente no mundo. Ninguém diz “eu te odeio” numa discussão acalorada com tanta certeza e convicção de consciência. O ódio é sempre velado e difundido debaixo dos panos por um discurso muito peculiar.

 

Em síntese, o que definimos como discurso de ódio são todas as maneiras de aniquilamento do diferente, daquele que não se enquadra nos padrões sociais ou que destoam da expectativa geral. A esses rebeldes infames que insistem em ser negros, gays, de religiões não reconhecidas pela maioria, que não são do mesmo lado político damos o simples nome de “outros”. O ódio, portanto, é sempre um discurso que tenta encobrir ou marginalizar o outro como indesejável.

 

Percebemos o discurso de ódio em vários momentos da nossa vida social e individual. Ele está na política, na retórica ultra conservadora, que pretende eliminar qualquer diferença social. Ele se expressa nos jargões “bandido bom é bandido morto”, “mulher não pilota carro, pilota fogão”, “gays querem direitos demais” ou ainda “esse petralhas são todos ladrões”, “esses coxinhas são todos da elite” e assim vai...

 

Também encontramos o discurso de ódio nas famílias e em nosso cotidiano mais banal. Quando julgamos alguém que fez um “trabalho de índio” ou porque “tinha que ser preto”, ou mesmo quando fazemos piada sobre a “bichinha" e o "viadinho” estamos dando continuidade a esse discurso que pretende menosprezar o outro – aquele que não cabe em nossos padrões. De fato, o índio, o negro, a bicha, são pessoas indesejáveis que questionam nossa moral branca, heterossexual e cristã.

 

E aí está outro perigo do discurso de ódio: a religião. As religiões em geral pregam o amor. O cerne do cristianismo é o amor, inclusive. E o amor que as religiões almejam é sempre muito desinteressado, muito largo e inclusivo. No entanto, o ódio também se camufla nos discursos religiosos, sobretudo quando se pretende uma afirmação da identidade de um grupo sobre a destruição de outro. E isso é um problema – e um crime! – de intolerância.

 

Que as religiões defendam seus pontos de vista, tudo bem! Desde que não partam para a diminuição do outro e para o discurso fundamentalista que, em resumo, diz assim: “quem não está conosco, está contra nós e deve sem aniquilado”. Ora, o discurso de ódio na religião é uma grande incoerência. As religiões, ao invés de se degladiarem por questões doutrinais ou morais, deveriam se unir por questões importantes como os altos índices de depressão e suicídio, a força do tráfico de drogas, a dignidade das pessoas encarceradas, o auxílio aos pobres etc.

 

Mas o pior do ódio disfarçado em discursos sutis é que ele vai além da palavra. Como toda linguagem, o discurso de ódio também é performativo, ou seja, as palavras tem força de realizar algo concreto. Nesse caso, quando excluímos o outro com nosso dizer ele de fato é excluído. O pai que descobre a filha lésbica e que a condena num discurso homofóbico com jeitos de cristão acaba excluindo a filha da família. O partido político que não acolhe a crítica de seu adversário e prefere banir o que pensa diferente acaba realmente oprimindo e banindo. Um líder religioso que semeia contra outras religiões colherá em seu rebanho atitudes de desprezo muito concretas de seus ouvintes quando estes se depararem com os que creem diferente. Uma cidade inteira que julga esta ou aquela pessoa por não se enquadrar na pseudo “normalidade social” acaba marginalizando tal cidadão. E assim, o ciclo do ódio é interminável.

 

Nossa sorte é que, se o discurso do ódio tem toda essa força, muito mais forte é o discurso do bem confirmado em nossas atitudes de acolhida, respeito e responsabilidade. Quem sabe assim conseguiremos romper esse ciclo vicioso que encobre e anula o outro em sua alteridade?

 

Pense bem!

 

Opinião por:

Gregory Rial é itapecericano, mestre em Filosofia pela Faculdade Jesuíta e professor. Dedica-se ao estudo da ética, sociedade e comportamento.


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